Atentado ao Hotel Taj Mahal não é só um filme pautado na ação!

Atentado ao Hotel Taj Mahal de Anthony Maras, conta a história do ataque terrorista realizado pelo grupo islâmico Lashkar-e-Taiba em 26 de novembro de 2013 na cidade de Mumbai, Índia. O filme de pouco mais de duas horas concentra grande parte de sua tensão dentro do famoso hotel na cidade de Mumbai, em que o garçom Arjun (Dev Patel) e o chef de cozinha Hemant Oberoi (Anupam Kher) desdobram-se para fazer valer as prerrogativas do local: o hóspede é Deus.

Constantemente perpassado entre os limiares da sociedade indiana, islâmica e americana, Atentado ao Hotel Taj Mahal não é só um filme pautado na ação – fugas e gritarias em meio aos tiroteios. A história se mostra marcada pela complexidade humana que, especulada entre breves acusações que parecem limitar os heróis e os violões, infelizmente consegue com que muitos espectadores apenas escolham um lado para torcer.

O filme demonstra o tempo inteiro o quão doloroso é categorizar as pessoas segundo o lugar em que elas nasceram, seus costumes e sua fé. Arjun é um indiano que, ao deixar uma Índia populosa e desregrada - sua mulher grávida e filha – tem que chegar ao hotel disposto a fazer de tudo para os seus hóspedes. Talvez, sua cena mais emblemática esteja fora do âmbito da ação: quando já presos no local mais seguro do hotel, uma hóspede já de idade, Lady Wynn (Carmen Duncan) revela-se amedrontada com o turbante de Arjun, a ele é pedido para que se esconda ou, simplesmente, retire aquilo que o torna quem é. Arjun se explica mostrando a foto de sua família - um pouco melodramático demais, mas funcional – o garçom esclarece que aquele adereço faz parte da sua vida e que sem ele não poderia ser completo. Rendido aos desejos alheios e ao mesmo tempo figurado como uma pessoa mais compreensiva que os desesperados americanos, Arjun dispõe-se a tirar seu turbante, caso isso faça sua hóspede sentir-se melhor e num balbuciar de arrependimento, ela permite que ele continue como está.

A figura da família está presente em praticamente todos os núcleos da história e acaba assumindo o fio condutor da narrativa - seja na forma como os funcionários do hotel se relacionam devido ao longo tempo que passam juntos, afinal muitos estão ali há anos, fazendo deste local a sua própria casa ou na família dos terroristas – que se mostram também preocupados com o dinheiro que seus familiares receberão após o “trabalho” encomendado.

Mesmo tentando incorporar os valores de uma unidade familiar universal, o filme tropeça na visão típica e ultrapassada de turistas que se encantam com o exotismo de uma cultura diferente, deixando claro os precipitados julgamentos que fazemos sobre aquilo que não conhecemos. É onde começa o desespero.

Zahra (Nazanin Boniadi) acabou de se tornar mãe. Ela é casada com David (Armie Hammer) - um americano construído sob a égide do homem corajoso e de bom coração que se surpreende ao pedir um hambúrguer no restaurante do hotel e descobrir que a vaca na Índia é um animal sagrado - não que ele seja obrigado a saber – mas é interessante como o imediatismo americano de resolução dos conflitos está ausente no filme – tudo é demorado e as soluções não são instantâneas como num preparo de fast food. Um exemplo disso é a própria inabilidade da polícia indiana ao ter que lidar com um evento de grande repercussão - sem recursos, os policiais arriscam suas vidas. E é aí que percebemos o quão expostos vivem as pessoas nesse país: o sofrimento não ganha visibilidade pela morte dos nativos, mas pela ameaça a vida dos estrangeiros que lá estão.

Como um símbolo do poder e riqueza em meio a uma das cidades mais importantes da Índia, o hotel é capaz de realizar os desejos mais impensáveis e ácidos de seus hóspedes quando sustentado pelo dinheiro, mas ao mesmo tempo, ele é impossibilitado de ser defendido pelos seus. Vasili (Jason Isaacs) é um exemplo brutalizado disso, sua cena no restaurante em que ao telefone ele escolhe duas modelos para passar a noite, exacerba o perfeito estrangeiro que tudo pode fora de seu país. Mais tarde, descobrimos que sua estupidez não é só pelo fato de ser uma personagem construída sob um estereótipo machista, mas por ter sido um dos generais na guerra do Afeganistão e responsável por inúmeras mortes, ele precisa ser vingado por suas atrocidades.

Nesse sentido, a velha demarcação entre o bem e o mal torna-se cada vez mais turva quando, ao observarmos as conversas entre os jovens terroristas, percebemos que eles possuem também um trato de humanidade - seja pela preocupação com a família e o dinheiro que irá ajudá-los, pelo respeito aos alimentos que não podem ser ingeridos por conta de sua fé ou pelo fato de pouparam uma das reféns do hotel por ela ser muçulmana - o que acontece com Zahra, por exemplo - são jovens treinados para matar na mesma medida em que os funcionários do Taj Mahal são instruídos a servir, cegamente.

Das diferentes subtramas que acompanhamos, a da família de Zahra que luta pela sobrevivência de seu filho recém-nascido é das mais angustiantes. Na companhia do marido e da babá Sally (Tilda Cobham-Hervey) – a grande responsável por manter o bebê vivo – à Zahra não é dada a chance efetiva de lutar pelo seu filho, já que na maior parte do tempo ela se encontra presa. Todavia, essa personagem feminina provoca uma discussão que, ao mesmo tempo em que coloca a mulher eu seu papel submisso e por vezes ligado a fé – ela só escapa da morte porque começa a proferir um mantra islâmico, quando um dos terroristas reconhece a oração, se recusa a matá-la – ela também a profere como um meio de promover a paz entre eles de forma pacífica e sem apelar para a violência. No início, desacreditada em seu Deus, Zahra fala ao telefone com sua mãe e parece ter perdido suas esperanças, no entanto, é justamente pelas perdas sofridas que sua vida será radicalmente subvertida – ela sobreviverá pelos mesmos motivos que levaram muitos ali a serem mortos.

Ao introduzir e intercalar imagens de arquivo do atentado, principalmente das cenas externas de correria e cobertas pelo pó das explosões, o filme ganha uma outra dimensão – a heroicização como escape dos atos violentos. Essas imagens afirmam a aparente qualidade do “baseado em fatos reais”, contudo, a leitura cinematográfica do atentado pode trazer muito mais à tona, ir além do reclame à violência e das estetizações políticas e culturais é promover um debate de como o próprio cinema trabalha com essas representações.

Atentado ao Hotel Taj Mahal não é um filme de denúncia, mas as suas imagens apontam para uma provocação extremamente contundente das sociedades enquanto consumidoras de imagens e ideias que, muitas vezes, elas nem a conhecem. Da mesma forma que o filme inicia com Arjun arrumando o seu turbante, tão emblemático dentro de sua cultura, ao final, este objeto já não está mais lá. Na tentativa de salvar Bree (Natasha Liu Bordizzo) uma turista oriental atingida logo no início da história em um restaurante fora do hotel, Arjun abdica de seu lugar no mundo em prol do outro, ainda que sua transformação em herói pareça promover um tipo de propaganda da bondade, um espaço que precisava ser ocupado ainda que duvidoso, mas convincente à história. Ao intercalar entre seus papéis – pai, garçom, marido, salvador ou devoto de sua fé, não só Arjun, mas todas as outras personagens de Atentado ao Hotel Taj Mahal nos dão a chance de poder refletir sobre as nossas pluralidades.


Nota: (4/5)


Assista ao Trailer:

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