Carta Registrada consegue universalizar a solitude feminina.

Primeiro longa-metragem de Hisham Saqr, diretor e montador egípcio, o filme Carta Registrada (Certifield Mail) apresenta uma discussão bastante sensibilizada sobre a falta de compaixão e, mais profundamente, a desinformação sobre distúrbios psicológicos, revelando um contemporâneo cada vez mais inóspito às complexidades humanas. Ao circundar um terreno contaminado pela intolerância, o filme de Saqr consegue encontrar um equilíbrio narrativo que nos envolve com naturalidade e ao mesmo tempo nos choca por demonstrar o quanto banalizamos aquilo que não vemos, ou seja, tudo o que é sentido.

A história retoma uma leva de filmes muito mais preocupados com o cotidiano, as autênticas dificuldades de uma vida muito próxima daquela que levamos. Sem promover discursos muito afoitos ou radicais sobre a dita força da mulher e sua capacidade - julgada quase como nata à tal “natureza feminina” - em desdobrar-se para os outros, o filme beneficia-se da angústia do silêncio. Afinal, em uma sociedade consumida pelo patriarcalismo extremo, para exemplificar as iniquidades basta olharmos para nós mesmo.


Carta Registrada explora as dificuldades da depressão e a tendência suicida de Hala (Basma), uma professora que é casada com um funcionário de um banco e mãe de uma menina. Com uma câmera que respira junto de sua personagem, o assombro de Hala não é dialogado, mas exacerbado pelo seu corpo: o jeito como prende o cabelo, as mãos trêmulas que seguram o cigarro, o olhar indolente à sua filha ou a forma como comprime cada músculo para sentar-se no mesmo sofá de sempre, um móvel surrado, como também é desgastada a sua vida.

É enganoso pensar, por exemplo, que a Hala se reserva um papel vitimista e que faculta a comiseração, sua trajetória parece estar muito mais ligada a uma confrontação entre o que se quer e o que deve ser feito que a uma lógica padecedora. Não à toa, a responsabilidade pelo estalo da sobrevivência acontece quando o seu marido realiza um depósito no banco por engano e, a partir de então, começa a ser investigado pela polícia.

Com o companheiro preso e tendo que cuidar sozinha de sua bebê, Hala leva para fora de sua casa tudo aquilo que é obrigada a reprimir - a depressão pós-parto e o medo do abandono. Além dessas problemáticas, Hala também precisa lidar com as agonias de sua mãe - que vive reclamando da filha mais jovem - e a delicada fase adolescente de sua irmã, que adora ficar na rua brincando com os garotos e desenhando: comportamentos aparentemente ainda reprovados pela sociedade.


Hala também reflete um pouco o nosso pavor em relação ao passado, já que ao carregar em si a dura experiência da perda do pai, as circunstâncias advindas por uma situação de abandono - seja conscientemente ou por meio da morte - parecem persegui-la constantemente. Ao mesmo tempo, esse vazio deixado pela figura paterna serve como alicerce para o relacionamento com a própria irmã: se no início da história Hala recriminaria a garota por não seguir as regras que lhe são impostas, mais tarde a primogênita começa a enxergar na jovem uma familiaridade que vai além dos laços de sangue, passa a entender que ela possui suas próprias vontades.

É interessante pensar que a relação entre irmãs aparece de forma acanhadamente fortificada, como se houvesse um retorno da vida adulta - essa vida tão complexificada que parece apagar tudo o que veio antes. Em Hala, a lição está, justamente em deixar tudo transparecer: o medo deve ser posicionado como um espelho, olhando diretamente para nós e nos questionando.

A protagonista de Carta Registrada cria em si mesma essa oportunidade, ao retornar como professora - uma profissão tão vulnerável, ela se mostra em frente aos alunos, encarando perguntas que não consegue responder por completo. Além disso, é interessante destacar como a cumplicidade feminina é trabalhada no filme, se em um primeiro momento enxergamos o seu antônimo, em meio a essa ausência conseguimos identificar as ações na contramão. A amizade entre Hala e Mona (Passant Shawky), uma amiga que casa escondido, já que o marido não é aprovado por sua família, é prova da existência de uma relacionamento que pode perdurar a partir do não julgamento entre as partes - requisito quase impossível quando pensamos nas exigências do presente.

Ao título do filme resguarda-se uma correspondência com as cartas que Hala encontra na porta de sua casa. Como se estivesse em comunicação com uma pessoa que está passando pelos mesmos problemas que ela, Hala descobre nas cartas uma história que também é a sua - um mistério que não se explica - mas conforta um aspecto absolutamente humano de nossa existência: apesar de tudo, não estamos sozinhas.


Nota: (5/5)


Assista ao trailer:


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