Crítica: A Menina E O Leão

A menina e o leão de Gilles de Maistre, é um filme sensível ao que na maior parte das vezes não é racionalizado e, por esse motivo, não é valorizado como algo significativo: os sentimentos. Com uma narrativa que pretende, de forma branda, promover uma crítica a todo um sistema de criação e venda de animais para a caça legalizada, a história é encabeçada por uma garota de gênio forte, Mia (Daniah De Villiers) – sua aparência, não à toa dourada e descabelada lembra a de um leão. Agora na fazenda do pai, John (Langley Kirkwood) localizada na África do Sul, Mia passa por uma fase de aceitação do novo lar ao abandonar sua vida em Londres, o solo árido da África parece não agradar. Com uma mãe amorosa, Alice (Mélanie Laurent) e um irmão mais velho que sofre com crises de pânico, Mick (Ryan Mac Lennan), Mia volta seus olhos para o novo filhote da fazenda: Charlie, um leão branco.

A lenda contada pela mãe aos filhos na hora de dormir é bastante clara: o nascimento de um leão branco salvará a todos os humanos. Tal metáfora pode ser apreendida um pouco mais além: em um tempo onde a mão humana parece destruir tudo o que toca de forma explícita, a ira da Mãe Natureza converte-se em vingança. Na verdade, vingança talvez seja uma palavra muito forte, o que realmente se quer discutir são as consequências de nossos atos, que se pautam apenas no lucro excessivo e deixam de pensar que não estamos sozinhos no mundo: toda forma de vida ocupa um espaço e tem sua devida importância.

Ao construir-se sobre o arrependimento de presenciar uma matança de leões sem precedentes, John justifica-se pela necessidade financeira – não é ele quem criou as regras do jogo, elas já estão postas, estão postas na África do Sul e ele não pode mudá-las. No recorte da narrativa, a família vive um medo constante: aos 3 anos de idade Charlie já é um leão enorme e Mia continua tratando-o como um animal de estimação. Com a promessa quebrada de que nunca mais irá entrar na gaiola do amigo felino, os pais se veem obrigados a vendê-lo, todavia, a venda não é para nenhum circo ou zoológico - o que também poderia gerar uma série de questionamentos sobre o destino inadequado para o animal que serviria como passatempo aos humanos - é para um caçador de troféus.

Mia toma para si a responsabilidade pela vida do leão e acusa a consciência do pai – John é tratado da mesma forma que os leões, Mia o atinge com um sedativo e, com a ajuda do irmão, arquiteta um plano para levar Charlie para um santuário de leões, local em que os animais não podem ser mortos e convivem pacificamente com o povo nativo. Mia e Mick representam a ideia de uma geração que, felizmente, já se mostra preocupada com as problemáticas do meio ambiente, o que promove um embate contra a lógica financeira defendida pelo pai. Ao assistir A menina e o leão conseguimos fazer um paralelo com os movimentos insurgentes liderados por jovens de todo o mundo – em especial me recordei do caso de Greta Thunberg, a sueca responsável pelo Fridays For Future, em que todas as sextas-feiras ela falta as aulas para protestar em frente ao parlamento sueco, exigindo medidas políticas efetivas contra o aquecimento global – um exemplos dessas pequenas resistências.

Mia e Greta são meninas, jovens e solidárias às formas de vida diferentes das delas – não que esse tipo de protesto não possa ser encabeçado por um garoto, mas não podemos deixar de frisar que, nosso sistema econômico de lógica linear e metaforicamente masculino está em crise. Ao trabalharmos mediante essas distinções, sem atribuir juízos de valor, a proposta de convivência diferente da que estamos acostumados se torna mais circular – processos cíclicos e de regeneração precisam entrar em pauta, principalmente no que diz respeito aos recursos naturais. Se a circularidade está ligada implicitamente ao feminino, o roteiro apresentado por A menina e o leão não pode simplesmente nos oferecer uma garota protagonista porque a representatividade feminina está em pauta, mas por ser expressiva de novas ideias que provêm, principalmente, das vozes que foram silenciadas até então.

O típico vilão brutalizado, meio sujo e atrevido no olhar para as mulheres, Dirk (Brandon Auret), consegue arrecadar uma antipatia suficiente para um filme que não pretende discutir os fundamentos e causas de seu comportamento inadequado na venda de leões. Diferente do que acontece, por exemplo, com John, que consegue se redimir ao defender Charlie em seus últimos passos rumo ao santuário.

Assim, ao descobrirmos que as crises de pânico de Ryan são, muito provavelmente, fruto de uma matança de leões que vira aos 3 anos de idade, a sensibilidade exacerbada ao máximo prova que ainda somos capazes de sentir algo.

No âmbito sociocultural, as questões colocadas pelo filme também dizem respeito ao que fazemos com e pelo outro. A história de colonização violenta – palavras que se comportam quase como sinônimos – de grande parte do continente africano, é o universo que pontua as atividades ilegais da narrativa, é como se toda a carga de culpa, desvio e abjeto fosse justificada pelas problemáticas da terra e não pelas mãos dos seres humanos. Um exemplo da política de representação aparentemente profícua é a da personagem de Jodie (Lilian Dube), espelhada na figura da mammy – uma simpática e teimosa mulher escravizada que realiza as tarefas domésticas – representatividade muito comum no cinema para as mulheres negras antes da década de 1960, mas que, de certa forma, perdura até hoje. Incumbida dos cuidados, Jodie dá o aval para Mia, na verdade, as chaves que libertam Charlie de sua gaiola, encorajando a menina a fazer aquilo que ela acha correto.

A falsa imagem divulgada pela indústria do turismo que promete o contato com a natureza e animais silvestres é outra subtrama de A menina e o leão. Afinal, numa savana sul-africana idealizada historicamente por seu exotismo e belezas naturais, o que poderia ser mais redentor ao filme francês que a salvação pelas mãos de um colonizador com a sua parcela de culpa? Uma das caçadoras, uma mulher (Tessa Jubber) satisfaz seu desejo de morte convertido em entretenimento. Sua aparência plástica e pomposa no meio do deserto configura não uma capacidade de adaptação, mas uma convicção absurda de que as coisas devem ser de nosso jeito. Ao segundo caçador o desfecho é diferente, a ele é reservado uma personagem caricata que desaba em sua própria construção de pseudo-coragem – ele se torna a presa cômica e ridícula quando percebe que está correndo perigo.

O paradigma entre ficção e realidade pode parecer pender, mais uma vez, para o lado fantasioso – uma menina de 14 anos amiga de um leão e que viaja por dois dias para salvá-lo de uma caçada – uma aventura absurda, mas que não deixa de exprimir grande parte do disparate às falsas preocupações demonstradas pelas grandes corporações - leiam-se, pessoas – em relação à preservação da natureza. Se parece um tamanho absurdo a relação de amizade entre uma menina e um leão, uma história que a inventividade pode nos proporcionar, penso ser de uma insensatez incomparável o fato de fecharmos os olhos para os rastros de destruição que deixamos por onde passamos. Por esse motivo, hoje, eu fico com aquilo que não conseguimos explicar racionalmente.


Nota: (4/5)


Assista ao Trailer:

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