Crítica: Documentário - No Coração do Ouro: o escândalo da seleção americana de ginástica!

Dirigido por Erin Lee Carr, roteirista e produtora norte-americana, No coração do ouro: o escândalo da seleção americana de ginástica (2019) é um compilado de depoimentos femininos dolorosos que colocam à prova a solidez da equipe de ginástica olímpica dos EUA, ao revelar depois de quase três décadas, os abusos que as atletas sofreram pelo osteopata da equipe de ginástica artística: Larry Nassar.

Ao me referir a equipe falsamente sólida e que por anos fora tão prestigiada em competições, exponho ao que, no filme, é nomeado como o “sistema”, ou seja, todo o aparato que fora construído para alimentar uma lógica econômica, pouco humana e movida às aparências. Esse mesmo sistema fora capaz de transfigurar a paixão e dedicação pelo esporte, em uma prisão física, psicológica e emocional para centenas de garotas.

Ao dar voz para meninas e mulheres - a mais velha delas, Trinea Gonczar, que depõe grávida em piedade a frente de seu agressor e revela ter sido abusada mais de 800 vezes - o filme de Carr aponta para um retrato de uma sociedade totalmente despreocupada com a infância, capaz de fazê-la em meio a violência e driblar todos os seus culpados, inclusive nós mesmos. As revelações acontecem em um crescendo cada vez mais hipnótico, que nos deixa atônitas - confirmo a palavra no plural e feminina não desmerecendo aquilo que pode e é tão revoltante para qualquer outra pessoa, mas essas jovens conseguem pontuar algumas questões que são tão recorrentes e íntimas para qualquer garota que luta para sobreviver em um mundo onde a masculinidade e o progresso configuram-se como a base da vida, inclusive de grande parte de nossos problemas.


Por esse motivo, a violência individual das palavras vai se tornando cada vez mais coletiva. Em uma investigação que pretende chegar ao cerne do sistema, incriminando não somente Nassar, mas todos aqueles que camuflaram suas ações, técnicos da equipe, presidentes e mais uma lista de cargos burocráticos - inclusive mulheres do própria equipe - compreendemos aqui que não se trata, exatamente, de creditar as aparências ou ao gênero - como muitas discussões contemporâneas asseguram - a culpa pelos crimes sexuais, mas a própria forma como a sociedade é instituída e desencorajada a falar sobre aquilo que a desestabiliza.

De fato, as imagens não são a principal preocupação do documentário - ao favorecer uma linguagem convencional com primeiros planos e planos médios para as entrevistas, mas que não por isso perde a sua força - delega-se ao texto a grande fúria da história. Nesse sentido, o incômodo com as imagens repetitivas de arquivo de Nassar em seu consultório, escolhem um meio de provocação extremamente paranoico. Esses vídeos são tratados como as “imagens de cobertura” daquilo que é dito, porém, nenhum deles consegue chegar na amplitude do texto. Longe disso, é claro que, tudo o que é falado é suficientemente esclarecedor sobre aquilo que se quer dizer, as imagens, nesse sentido, nem são necessárias, mas a utilização constante desse médico explicando tratamentos e como o corpo funciona, com um intenso destaque para as suas mãos nesses pequenos corpos, incumbe o espectador de tornar-se um detetive - como que encontrar na imagem algo que o incrimine ainda mais - um tipo de sensacionalismo descabido causado pela repetição.

Me coloco em atenção também para algumas hipóteses bastante contestáveis: ao tentar compreender os anos de abuso, promovendo nada menos que o retrato de um homem responsável pela agressão de mais de 300 ginastas, o depoimento de uma das garotas confirma o quão aquele cenário - cheio de meninas e praticamente impune de atenção - promovia, obviamente, as condições perfeitas para a ação de um pedófilo. É preocupante esse tipo de asserção, o que agrava ainda mais a lógica de uma sociedade como a nossa, que vive das aparências: o que caracteriza, de fato, um pedófilo? Para ele existe um rosto ou um modo de agir? Existe um cenário ideal justificável? Resumindo: não é possível, de antemão, identificá-lo pelo cabelo ou pelo modo de olhar, pela quantidade de curtidas no Instagram ou por sua aparente aceitação social, mas é possível sim estimularmos espaços cada vez mais amplos de diálogo, de atenção com o que o outro sente e vivencia. É possível pararmos para colocar em prática aquilo que nos torna humanos e não só mais um número dentro da universidade prestigiada ou de uma equipe famosa de ginástica.


No coração do ouro: o escândalo da seleção americana de ginástica também não deixa impune as dificuldades do próprio esporte, que exige crianças cada vez mais jovens para treinar exaustivamente. Mesmo machucadas são tratadas em meio a gritos, julgadas pelos seus supostos erros por não executarem os movimentos perfeitos, a metodologia desenvolvida para o treino visa promover um retardo do crescimento que, claro, não é saudável. A preocupação está em atingir o auge do sucesso antes da maioridade, afinal, somente até os 17 anos ele é válido: seria essa também uma outra forma de violência?

Treinadas para nunca demonstrarem suas fraquezas e acostumadas a um esforço físico contínuo, as garotas da ginástica artística encabeçadas por Rachael Dehollander em 2016, conseguiram ultrapassar a fala enclausurada para finalmente serem ouvidas. Também motivadas pelo movimento #MeToo - um ativismo preocupado com os casos de assédio sexual e agressão sexual que ganha cada vez mais notoriedade por circular nas mídias e que fora criado pela ativista Tarana Burke, que luta pela causa de mulheres negras jovens - a força dessas mulheres se volta novamente para o coletivo. Com pouco mais de 15 vítimas e ex-ginastas que prestam seus depoimentos, o documentário desenha sim um quadro aterrador, mas ao mesmo tempo arremata uma crítica importante: como justificar o injustificável e sim, ele responde, através de nós mesmos.


Nota: (3/5)

Assista ao trailer:

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