Crítica - "Liberdade é Uma Palavra Grande" - Grandes palavras, imagens imensas

Em Liberdade é Uma Palavra Grande, documentário de Guillermo Rocamora, a injustiça esclarece todas as falhas de um sistema que é humano, mas deixa às sombras todos os alicerces que fazem desse mesmo sistema uma total inumanidade. Se a palavra liberdade carrega um adjetivo apenas para torná-la esvaziada das afirmações sórdidas, o seu inverso, colabora com uma imagem estática, não per se, mas paralisada por algo, e esse algo, para a surpresa, é o oposto do humano e seu próprio referente: a carne humana.

Em um cruzamento de dualismos que não se anulam, o filme que retrata a vida pós-Guantánamo de Muhammad - um palestino que sofrera com a fome, a tortura e a humilhação por mais de uma década, agora revisita uma angústia nunca abandonada e que permanece mesmo após a sua soltura. Ao participar de um programa criado - ironicamente sem prática de implementação efetiva - pelo governo uruguaio em um levante de bandeira por José Mujica, identificado-se talvez, pelo passado de preso político, como acredita o próprio diretor do filme, o programa que acolheria os ex-prisioneiros em liberdade é totalmente falho. A vantagem, em grandes palavras, é afirmada por Mujica enquanto um “benefício para a humanidade” e não para o Uruguai, uma demonstração somente linguística de solidariedade. Seriam, ao todo 2 anos para se acostumarem com a vida nova - como se não houvesse uma vida antes disso; a língua, a cultura, a família e o emprego são tópicos de direitos básicos que se convertem em obstáculos.

O “começar de novo” é, definitivamente, um tema muito mais latente que a vida pós-Guantánamo, como insiste o diretor em entrevista concedida, porém, esse marco que define uma ingestão sem precedentes de algo próximo da liberdade não consegue se desenrolar. Não existe chance para alguém, que dirá para os ninguéns oficializados pela justiça estadunidense em prol de seus próprios interesses. Os escritórios diplomáticos, as entrevistas de emprego sem perspectiva alguma, a dificuldade do idioma e os trâmites culturais - um paradoxo - revelam a angústia de Muhammad, agora com esposa e filha.


Das situações mais desconcertantes para a nova família, o sistema de saúde sem rosto e o menor respeito pela religião, nega o pedido de um parto que deveria ser feito por uma médica mulher, como tenta explicar Aziza, justificando-se por meio da religião. Como um dentre os inúmeros pedidos negados ao longo do filme, o drama também está nas pequenas coisas: o conserto de um nome grafado incorretamente, a impossibilidade de trabalhar com a venda de álcool ou carne de porco (o que diminui ainda mais as expectativas de empregos), a compra das roupinhas da bebê - esta última, resulta em um diálogo espontâneo, um único momento cômico, que disserta sobre os uruguaios adorarem os ursos em trajes infantis - um hipótese.

Com um documentarista afastado das imagens que produz e que de forma alguma se pronuncia, ocultando a amizade florescente desde 2015, ano em ocorreu o primeiro encontro entre Guillermo e Muhammad, as filmagens confirmam um estado sem rosto e, grande parte do tempo, em estado de imutabilidade. Se a narrativa em OFF com a voz de Muhammad relembram os tempos difíceis da prisão, as imagens recolhidas para abastecer as imagens daquilo que só é ouvido reforça a onda metafórica da própria montagem.

Entre idas e vindas de locais que vomitam sempre um “não podemos fazer nada por você”, a utilização das grades do elevador em movimento, o mesmo elevador que o protagonista utiliza para entrar e sair de sua casa, aponta para uma constante prisão: Muhammad não está preso mais literalmente a um cubículo, como esteve em Guantánamo, todavia, a sua nova prisão, construída sobre mentiras e promessas de auxílio, soa muito mais aliciante - seu eu do passado sobrevive de minuciosos assopros, mas o fôlego não é o suficiente para manter uma respiração permanente.



Ao acentuar o cinema como um meio de pensamento sobre o pessoal e o político, o recorte proposto por Guillermo evoca não apenas a história de um protagonista que inicia e termina sua jornada em 71 minutos de filme, mas provoca uma narrativa que pode ser tão expandida para outros corpos e situações que reverberam as adversidades a que milhares de refugiados estão sujeitos em países que desconhecem. São as problemáticas de aceitação do outro, a adaptação aos novos contextos e, principalmente, o enfrentamento das consequências de seu passado - uma linha tênue, mas sempre presente e que, como seres humanos apegados, nunca deixamos se dissipar, para finalmente, traçar novas. De todos os poderes do passados, só realçamos aquele capaz de destruir o presente.

Com um desfecho que acaba forçando a família a se separar devido às não-condições de sobrevivência em meio a um Uruguai que, como afirmam em modalidade de desculpa - “não consegue nem resolver os problemas dos uruguaios, que dirá dos outros” - Aziza é obrigada a se mudar com a filha para o mesmo país de origem do marido, mesmo não sabendo falar a nova língua - uma nova adaptação, agora com o conforto de uma família estranha.

A integração social é completamente esfacelada em todas as suas diretrizes, se o documento que aparece no início do filme não é o suficiente para identificar Muhammad ou torná-lo cidadão de algum lugar, o seu arremate parece mais um ciclo que uma conclusão, afinal, o protagonista também termina com um documento em mãos, sua foto mais jovem que parece nada valer para a sociedade, revela a vida em uma imagem - congelada e permanente porque não a deixamos mudar, mas sempre sobrevivente de nós mesmos.


Nota: (5/5)

Assista ao trailer:

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