Crítica: Não Olhe!

Atualizado: 5 de Mar de 2019

      Não Olhe é um filme que surpreende mais pelas histórias que deixa de contar do que por aquelas que realmente conta, escrito e dirigido por Assaf Bernstein, o argumento inicial é de que a protagonista, Maria (India Eisley) sofre de algum transtorno de personalidade, porém, não são todas as situações que a psicologia consegue explicar – ainda bem!

No auge de seus 18 anos, Maria já sofre com problemas de relacionamento. Filha de Dan (Jason Isaacs) um cirurgião plástico fissurado pela perfeição do corpo e Amy (Mira Sorvino) uma dona de casa sufocada pelas decisões do marido, a garota tem apenas uma amiga de infância, Lily (Penelope Mitchell). Ao descobrir alguém que pode ajudá-la, Airam (India Eisley) – o inverso do nome "Maria" que prossegue a lógica do reflexo no espelho, jogo óbvio – que é, na verdade, a irmã gêmea que fora morta pelo pai por ter nascido, como Dan acredita, com algum defeito físico.

Apoiado em situações que exacerbam o maniqueísmo e pouco se dão conta da complexidade humana – a luta melodramática do bem contra o mal ainda prevalece – e esquece que as pessoas são um grande turbilhão de sentimentos e ações ao mesmo tempo.

Com uma família preocupada com as aparências – leia-se, a sociedade – o tradicional momento de união na mesa do café-da-manhã está longe da felicidade de uma família típica dos comerciais de margarina. Tudo é congelado – inclusive o tempo lá fora –, os móveis são demasiadamente angulosos, as frutas são sempre tão vermelhas e contrastantes que conseguimos ver de longe a quantidade de agrotóxicos – uma falsa e bela vida saudável. Dan é a personificação da paranoia com a beleza – leia-se, a sua ideia de belo. Especializado em cirurgias plásticas, ele redesenha os corpos como se fossem seus e se incomoda com os molhos que escapam da boca enquanto comemos. Já Amy está o tempo inteiro anestesiada, seja pelos medicamentos que seu marido lhe dá ou por conta dos 18 anos que ela não viveu – ainda assim, consegue ser a pessoa mais viva da casa.

Não Olhe é sobre uma adolescente em depressão que não consegue ser ela mesma, sobre a dificuldade de diálogo com os pais, sobre o bullying sofrido por ser “diferente” e, claro, sobre o horror de uma irmã morta e desprezada que volta para se vingar. No entanto, talvez o ponto fundamental esteja numa trama de maturação que não acontece e por esse motivo a vida de uma jovem é vivida de acordo com as regras impostas pelos pais e a sociedade.

Há 18 anos Airam sai do útero de sua mãe e vai em direção a uma morte fria, destino proporcionado pelo pai que reconhece na filha um corpo que ele não é capaz de amar. O mais chocante não está nas cenas de sustos – que são poucas – mas naquilo que passa na cabeça de um pai que, acredita que a solução para a vida aparentemente infeliz de sua filha seja uma cirurgia nas orelhas e no nariz. Ainda que para uma narrativa estadunidense o presente de aniversário tenha fugido do previsto – um carro – em Não Olhe a cirurgia plástica é um presente inusitado, mas ainda assim dá voltas dentro de um estereótipo: o do corpo perfeito.

Talvez, a personagem mais interessante da leva jovem seja Lily – a estudante e patinadora talentosa que namora com Sean (Harrison Gilbertson), um dos garotos do time de hóquei. Lily é mais humanizada – ela sente raiva quando Maria começa a se dar muito bem com o seu namorado, por isso a leva para patinar e a deixa estatelada no gelo; se sente animada ao dirigir sua Porsche amarela a caminho da escola e, finalmente feliz quando sua amiga consegue sorrir.

Depois de ser arrastada pela pista de gelo por Mark (John C. MacDonald) – leia-se um baile nem um pouco preocupado com aqueles que não possuem a mínima experiência com a performance no gelo – Maria dá lugar a Airam.

A caminho do parque e de carona com Lily, o corpo de Maria aproveita a música como se fosse a primeira vez. Maria está aprendendo a patinar – Lily executa passos difíceis e Maria, como novata, consegue replicá-los mesmo com as pernas trêmulas, impressionando a amiga. Maria está azulada, seu rosto frio e seu olhar mais afiado que a lâmina dos patins persegue a amiga, Lily é iluminada de forma diferente, mais amarelada, seu corpo rosado possui muito sangue correndo pelas veias.

O uso do corpo, seja na metáfora da maternidade, na experiência da masturbação, na primeira relação sexual ou o beijo entre pai e filha, é o maior instrumento narrativo da trama: as pernas jovens parcialmente cobertas por meias 3/4, os seios timidamente de fora, os rostos esticados pelo tempo e os corpos em frente ao espelho que pagarão para serem consertados, apontam para o corpo como a nossa prisão.

Talvez, o que falte na história dessas personagens é enfrentar os pais. Maria não desafia seus pais – não grita, não responde, não fala palavrões – vive com lágrimas nos olhos – obedece às ordens de seu pai, até mesmo quando ele exige que ela passe maquiagem para ir à escola. A mãe só é capaz de completar com um elogio o blush que cora a pele pálida da filha, para Amy, obter uma vida padrão – leia-se, de acordo com ela mesma – é a solução: um garoto para acompanhar Maria ao baile ou uma coroa de brilhantes é o suficiente para transformar sua filha em um anjo. Amy prossegue na impotência exercitada durante toda a vida e seus momentos de desespero são engolidos, assim como ela faz com os medicamentos que seu marido lhe dá.

Em Não Olhe o sexo é curioso, ao se masturbar em um banheiro envolto pela fumaça, Maria descobre o prazer, todavia, tal experiência transforma-se em violência. Esse tratamento ultrapassado ainda se apoia numa lógica que prevê castigos e punições para atos considerados lascivos – conhecer o corpo é o primeiro passo para uma vida perturbada. Com cenas bem construídas dentro do banheiro, Não Olhe cria um ambiente sufocante, o vapor da água quente impregna no espelho e a respiração ofegante, resultado de uma masturbação intensa, só intensifica o quão Maria se afoga em suas preocupações – sua irmã aparece no ápice do seu prazer – aqui, relembramos o castigo sofrido por alguém que tenta ser simplesmente aquilo que é de sua vontade.

O corpo perigoso é tratado como porta de entrada para a barbárie. O sexo entre Maria e Sean é tratado como um caminho rápido e efetivo para a vingança – a jovem sedenta e o garoto que confirma de maneira pífia que a “carne masculina” é fraca diante da mulher, reafirma timidamente um discurso que designa a mulher a culpa por todos os males. A aula de inglês é a forma didática que o filme encontra para logicizar uma explicação para o que acontece – a história dos irmãos Caim e Abel – que é interrompida por um bilhete que Maria passa entre as pernas e entrega a Sean – “me cheire” – ela provoca, um aroma mortal e feminino. Mais tarde, Maria vai ao encontro de seu pai, chega ao consultório falsamente embriagada – nem tomada pela irmã-outra-personalidade ela possui a chance de sentir-se bêbada – e lá tira toda a sua roupa, é quando pergunta: “se eu fosse deformada ainda me amaria?” – Dan reluta e dá uma resposta tão falsa quanto o porre da filha.

Não Olhe termina da mesma forma que inicia: com a maternidade. Um jogo de câmera que se assemelha ao espelho nos diz que, de alguma forma, mãe e filhas estão juntas – o som que ouvimos enquanto as imagens trocam e as filhas vão aparecendo alternadamente, lembra o som da troca de transparências (os atuais slides) – um tipo de reserva imagética das memórias em família. Longe de apresentar personagens autenticamente livres, Não Olhe mostra o quanto não estamos preparados para cortar o cordão umbilical e como pais e filhos, sofremos as consequências dessa dependência.


Assista ao trailer:

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