Crítica: Quem me ama, me segue!

Quem me ama, me segue! constitui-se em meio a personagens estereotipados, mas não por isso menos divertidos quando o assunto é a liberdade. Ao trazer figuras que um dia foram jovens nos auspiciosos anos 60, o filme de José Alcala se debruça sobre uma juventude perdida em corpos velhos, ofegantes e rabugentos.

De maneira geral, este último é reservado ao marido oficial do trio de aposentados - Gilbert (Daniel Auteuil) - o ex-mecânico que, irritante desde o começo, prevê uma jornada bastante clássica de resignação para grande parte de suas intolerâncias.

Gilbert é o menos carismático dos três - Étienne (Bernard Le Coq) é o vizinho descolado, cabelo comprido e munido sempre de sua bicicleta, torna-se o amante ideal de Simone (Catherine Frot). A juventude rebelde que não deu exatamente tão certo é recuperada não em sentimento de nostalgia, mas como uma necessidade iminente para a vida. A perda de tempo, principalmente no que se refere à Simone e suas expectativas nunca alcançadas - o sonho de ter uma pizzaria, a tranquilidade de uma relação saudável entre seu marido, Gilbert e sua filha - constitui-se como a base de uma vida incompleta e frustrada.

Assim, o enredo ganha corpo quando o vizinho de cabelo ralo, mas comprido, decide se mudar, deixando Simone angustiada com a figura de um marido impertinente e mal criado - do qual ela confessa que, na juventude, foram as qualidade que a conquistaram. Todavia, até para os descolados que aproveitaram a década mais alternativa da história, os tempos mudaram.


Ao nos preocuparmos em percorrer as entrelinhas de uma trama bem estruturada nas relações interpessoais, Quem me ama, me segue! - como bem afirma o próprio diretor, coloca em pauta as expectativas e os resultados de uma geração determinada: o filme nos faz pensar em algo que, quando nos damos conta parece tão óbvio - a certeza de que a velhice chega para todos e muito dos ideias juvenis, que parecem permanecer pela eternidade, sofrem, de alguma forma, as suas transmutações ou, por vezes, até chega a desaparecer.

Mais interessante que desconstruir comportamentos direcionados a idade, o filme de Alcala exprime muito bem, através da figura feminina, as prerrogativas direcionados ao desejo de ser livre. Ao conceder a Simone a coragem de poder fazer o que sempre sonhou, a emancipação para longe de símbolos como o homem em sua jaqueta de couro ou o homem em sua moto com o rosto ao vento - no filme, a moto é substituída pela bicicleta de Étienne - uma troca divertida e que alcança uma veracidade simbolista até maior.

Simone quer ser livre e apenas ela pode tomar decisões que a faça assim: viver onde deseja e em paz - é um alívio para ela e para nós quando não escutamos mais o seu marido lhe chamar de forma insistente e irritante. Simone quer poder ter quantos homens deseja e viver com cada um deles aquilo que ela destaca de melhor: um ideário que ultrapassa as relações monogâmicas.


É muito interessante poder enxergar tais ideais pulverizados na figura de uma mulher, recapitulando e concedendo o devido destaque aquelas que de forma quase sempre transgressora, foram responsáveis pelo verdadeiro exercício de liberdade masculina, afinal, enquanto ao homem é garantido o direito de ir e vir sem alguma satisfação, a mulher é garantido o direito de ficar em casa.

Nesse sentido, o filme afirma-se como uma comédia muito bem escrita, inteligente e que pode enxergar além das confusões de um trio amoroso. Gilbert, ao ser o primeiro a saber da doença de sua filha - informação que Simone só terá ao final - reverte um papel, muitas vezes, dedicado à figura materna: o da cuidadora, mulher compreensiva que se doa aos que ama.

Quem me ama, me segue! altera as situações de maneira espirituosa em uma aldeia francesa clichê e charmosa, aliando atuações habilidosas em uma urgência que não data apenas dos anos 1960, mas do nosso tempo: uma autonomia que não vê gênero ou o quanto de rugas possuímos no rosto, ela apenas existe.


Nota: (4/5)

Assista ao trailer:

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