Crítica: Sobibor é um filme que sentimos na pele

Um drama histórico angustiante e que pretende, como grande parte das narrativas do gênero, construir uma memória do passado, Sobibor surge em uma época em que os lapsos do pretérito se encontram cada vez mais escassos, mas que, ao mesmo tempo, recuperam temas como o holocausto, que tomam outras proporções mediante a onda conservadora política e cultural que se vive no mundo.

Filme de Konstantin Khabenskiy, insisto em começar pelo fim. Quando o cineasta em tela preta dedica o filme aos seus pais e professores, a crise da memória que parece tão irreversível em nosso tempo, reaparece como uma luz fraca, mas ainda brilhante e indefesa, que enxerga na memória, por vezes esquecida, uma extensão do presente.

Baseado no livro “Alexander Pechersky: Breakthrough to Immortality”, Sobibor se arrasta por um campo de extermínio russo na Segunda Guerra. Se arrasta não exatamente pela narrativa lenta - Sobibor é dinâmico, ele recorta as expressões, os silêncios e os gritos dentro de uma métrica capaz de responder às tensões e suspensões da narrativa. Os trens que chegam ao campo de extermínio são a prova disso: o primeiro está repleto de homens, mulheres e crianças ainda bem vestidos e capazes de piadas; o segundo já é recebido por aqueles que sobreviveram - um misto de sofrimento, pena e medo que precisa ser disfarçado; o terceiro entrega a morte e, numa lógica já esperada pela história, abre espaço para a vingança.

O que se arrasta em Sobibor são os momentos de dor física dos prisioneiros - Johaan Neumann (Maximilian Dirr), um dos feitos prisioneiros que cuida da separação de todos os pertences daqueles que chegam - é constantemente chicoteado e obrigado a enumerar, em um idioma que não é o seu, todas as vezes que é golpeado. Sua contagem nunca é completada e sua voz, mais debilitada que o corpo, preenche a névoa pesada proveniente dos corpos que não param de queimar. As cenas da multidão ajoelhada como castigo para os que tentam fugir do campo, também se estendem ao contabilizar as pessoas que, de dez em dez são mortas com um tiro na cabeça.

As relações provenientes dos corpos exaustos pelo trabalho árduo também exploram a duração do tempo. Quando o general Karl Frenzel (Christophe Lambert) promove uma festa em que os seus gargalham e se embebedam, os prisioneiros ajoelhados são feitos de cavalos, levando os generais em carroças e correndo em círculos - os corpos são explorados à exaustão até restar um único suspiro, o suficiente para que continuem existindo.

Com um elenco formado por atores e atrizes de diferentes países, um ponto forte da produção é, justamente, o seu caráter múltiplo - uma representatividade que para o mundo contemporâneo reforça a ideia de equidade, mas sem desvalorizar as experiências e contribuições individuais. No entanto, mesmo com uma boa intenção, a execução não é tão convincente: ao falar cinco idiomas diferentes - russo, alemão, polonês, holandês e iídiche - as palavras parecem não ecoar daqueles que falam, revelando a dificuldade do idioma, um dos meios mais intrínsecos da cultura.

Ao demonstrar uma preocupação em apresentar-se como universal no âmbito da luta entre o bem e o mal, o filme de Khabensky - no qual ele interpreta Pechersky, o oficial soviético que lidera o motim - dá algum espaço às personagens femininas. O filme é sutilmente concentrado nas figuras de Luca (Felice Jankell) a noiva sofisticada de um joalheiro - este que enlouquece com a morte da mulher - e Selma (Mariya Kozhevnikova), recrutada para trabalhar separando objetos que os prisioneiros trouxeram ao campo.

No início, a sequência da câmera de gás com todas as mulheres desnudas e de cabeças raspadas, comprova a falsa mensagem de boas-vindas ecoada na chegada de cada trem. A vida será diferente a partir de agora: as mulheres sufocam-se em meio a vômitos que assassinam seus corpos aos poucos, terminam em um amontoado em que não conseguimos ver seus rostos. As mulheres já sem voz, calam-se ainda mais em um lugar onde as regras são impostas por homens.

O silêncio feminino segue personificado em Selma que, imobilizada pelo terror e com um olhar quase sempre marejado, resiste a uma tentativa de estupro - é salva por um dos seus - e, posteriormente, ajuda a concretizar o plano de fuga. Outra personagem feminina que merece destaque é Hannah (Michalina Olszanska), apaixonada por Pechersky e sensivelmente diferente das outras, utiliza-se da palavra para convencer o protagonista de que ele deve resistir – é por meio da sua voz que o oficial soviético encontra força para redimir-se de seu entojo e perceber que a humilhação será necessária.

Sobibor ultrapassa as relações entre as pessoas e explora no menino Kacper (Toivi Olszewski), o resgate da humanidade quando, em sua amizade com um cavalo, o garoto divide com o animal todos os torrões de açúcar que ganha por seus pequenos feitos. No momento em que o garoto, já participando do motim, convence um dos líderes de que ele encontrou um belo casaco de couro que lhe servirá muito bem, a recompensa é entregue como se Kacper fosse um animal: ele se põe de quatro, abre a boca faminto e pesca o açúcar no ar. Essa aproximação entre homem e animal, feita para mostrar as condições deploráveis dos prisioneiros, parece um pouco ultrapassada, ainda que a metáfora alcance seu objetivo primeiro. Se com o olhar do passado – do qual não é possível concretizarmos – essa comparação parece aceitável, na perspectiva contemporânea tal equiparação não passa de mais uma forma de colocar o homem acima de todos os seres e coisas, justificando-se por sua suposta racionalidade.

Assim, Sobibor constrói-se sob a égide da culpa, relegando aos opressores nazistas a responsabilidade por suas próprias mortes. O crânio estourado de um dos 12 generais “cabeças” do campo na primeira morte assumida pelos prisioneiros, é mostrado sem pudor – miolos e sangue ultrapassam a subjetividade da imagem, materializando a violência da carne: o filme definitivamente mostra todos os detalhes, elevando a potência escandalizada da imagem ao máximo.

O jovem Shlomo (Ivan Zlobin) é recrutado para trabalhar por conta de seu talento com as mãos, mata pela primeira vez e justifica-se ao já morto general que eles são os culpados, pois eles os ensinaram a matar. Seu talento é convertido, pelas circunstâncias, não mais na criação, mas na destruição de corpos e vidas que reverberam suas consequências na história do nazismo e, principalmente, como nossa memória sobre ele é construída pelo cinema. Com uma fuga angustiante estendida pela câmera lenta, bastante exagerada à narrativa, mas ao mesmo tempo expressiva quanto ao movimento dos corpos – conseguimos ver no andar desengonçado e deformado das pessoas o reflexo de toda a aflição humana. Sobibor é um filme que sentimos na pele.


Assista ao Trailer:


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