Crítica: "Um Amor Impossível" - o que deveria dar conta de um romance, ataca por outras vias...

Um amor impossível é sobre a incapacidade do amor, suas fraquezas e o desmantelamento romântico da vida. O filme coloca em jogo uma rede de relações que fazemos parecer invisíveis à sociedade, mas que na verdade, são peças chaves e que nos definem como pessoas.

A história que deveria dar conta de um romance, ataca por outras vias, a da relação entre mãe e filha, Rachel (Virginie Efira) e Chantal (Jehnny Beth). Com uma jovem já considerada passada para uma França em plena década de 1950, Rachel leva uma vida de muito trabalho e pouca distração, seu emprego como funcionária de um escritório e sua casa simples onde mora com a mãe (Catherine Morato) e a irmã mais nova (Iliana Zabeth), confirmam uma criação bastante tradicional, o que surpreendentemente concede às decisões de Rachel uma vida de desobediência, quase à frente de seu tempo, ou pelo menos, é o que deveria ser.

Essa mulher madura e independente aguenta calada tudo o que lhe é entregue, ficamos a espreita de reações que levantem o seu ânimo, despertem a sua consciência, mas sua pacificidade impera a um nível de dormência e inocência que nos faz acreditar em melodramas de resiliência como uma autêntica forma de vida: Rachel é feliz com o casamento da irmã em um tempo em que o matrimônio pensava definir algum caráter.

O romance construído na primeira parte do filme revela a clássica conjuntura de um amor dificultado pela diferença social - Rachel é uma secretária que mesmo não conhecendo Nietzsche, parece viver sua mais honesta prerrogativa, diferente de Philippe (Niels Schneider), sua paixão, que vomita um conhecimento falso, sedutor e do qual é muito difícil de simpatizar.


Catherine Corsini dirige cenas de amor que nos deixam muito mais incomodados que arrebatados pelos flertes - o cotidiano do casal desperta questionamentos tão profundos quanto a própria problemática do incesto. Rachel não sabe comer o que Philippe come, Rachel é apresentada as ideias, nunca as pessoas, Rachel é conquistada porque também se impressiona com os diversos idiomas exibidos pelo jovem e essa mesma língua parece fazer seu corpo viver momentos que ela nunca havia pensado ser possível.

Tal admiração é sustentada em todas as fases da história, mesmo Philippe confessando não poder se casar pelo fato de ambos não pertencerem à mesma classe social, Rachel prossegue fascinada pela inteligência dele e que a ela recusada. A gravidez inesperada sugere outro tom - somos apresentados a uma Rachel determinada e que passou anos lutando para que sua filha possua o nome do pai, uma luta que se completa também pelas dificuldades da nova profissão - um cargo de maior responsabilidade. Mas até que ponto o que é de Chantal por direito configura-se mais pelo que de fato ela precisa que a exigência de uma sociedade afogada em tradições paternalistas?

O direito da menina transforma-se em uma prisão da qual, ainda assim, a figura da mãe é a mais penosa. Extasiada por uma paixão em que a mãe/mulher é culpada, Rachel é tão bondosa e submissa que crê no afastamento da filha como um jogo de preferências pelo melhor - o mais inteligente, o mais rico, o mais desenvolto sempre ganhará - um pensamento que é verdadeiro e incompleto. O abuso está presente no romance e na paternidade, Chantal é tão vítima quanto a sua mãe, o que as difere é a coragem em demonstrar o sofrimento - Rachel engole, enquanto Chantal regurgita.


Com uma ideia de casamento que se move pelo interesse, Philippe acaba se casando com uma alemã de família importante, e em uma passagem teoriza para Rachel que as mulheres alemãs e chinesas são as mais capazes de cuidarem de seus maridos, sensíveis pelo fato de terem perdido tantos homens nas guerras - teoria barata, absurda e revoltante, mas que só faz Rachel colocá-lo para dormir em outro quarto.

A Philippe é reservado o esquecimento, a doença física que corrói as memórias e os conhecimentos do qual ele se gaba, lhe confere um fim tão irônico que chega a ser ridículo. Em contraponto, mãe e filha são atormentadas por lembranças incapazes de esvair-se com o tempo, pelo contrário, Rachel e Chantal revivem um drama impossível de esquecer, mas que se torna responsável por sua superação, ou pelo menos, a consciência do problema.

Nesse sentido, às mulheres é quase sempre destinado o peso do tempo, daquelas que foram antes de nós e de toda a carga depositada em espáduas diferentes da nossa, mas ao mesmo tempo, compartilhadas - enquanto Philippe pratica a sua individualidade monstruosa, mãe e filha conseguem, finalmente, extrapolar a solidão. Um amor impossível exprime uma prerrogativa além da cultura da qual Philippe fora incapaz de apreender em seus livros: o feminino é coletivo.


Nota: (4/5)

Distribuição: A2 Filmes


Assista ao Trailer:

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