Crítica: Voando Alto

Voando Alto de Andrea Block e Christian Hass, apresenta uma história bastante singular sobre a vida dos pássaros: as responsabilidades dentro do bando, as relações familiares e a própria problemática da aceitação das diferenças. Nessas três esferas, não necessariamente descortinamos o humano, no caso, a presença física, afinal, não lidamos com nenhuma personagem de nossa espécie, mas ainda assim, conseguimos enxergar traços de problemáticas que rondam também o nosso mundo.

Ao acompanharmos o amadurecimento de Manou - uma andorinha que se perdera quando filhote e acabou sendo criado por uma família de gaivotas - despertamos para temas muito mais simbólicos que a impossibilidade do pássaro em alçar grandes voos. Manou tem as asas menores, se alimenta de insetos, possui um corpo mais enxuto que o de uma gaivota, mas isso não deveria ser o motivo de sua exclusão - na verdade, nada deveria ser motivo de exclusão para qualquer espécie - como bem mostra a reviravolta final. Sua atitude heróica aliada às mesmas qualidades físicas que antes pareciam um problema, começam a ajudá-lo a tomar o seu lugar no mundo dos pássaros.

A família de Manou - o pai Yves, o líder do bando, exigente e durão; a mãe Blanche, uma gaivota extremamente compreensiva e amorosa e o irmão Luc, o alívio cômico da história, um jovem pássaro bondoso e irreverente, formam um triângulo bastante definido dos papéis reservados a cada figura. Para além de uma parábola que pretende estabelecer relações com uma sociedade em que os indivíduos são marginalizados simplesmente por serem quem são, a animação consegue sensibilizar-se, principalmente quando pensamos nas relações entre os irmãos - talvez o que existe de mais encantador na história - a dupla que se doa mutuamente, se preocupa e, principalmente, aceita aquilo que os tornam tão diferentes, conseguem exacerbar o esboço de uma família íntegra e plural.


Dos arquétipos mais explorados no filme, tais como o macho protetor ou a fêmea delicada, aqueles que promovem as prerrogativas clássicas do vilão, nesse caso, os ratos que se alimentam dos ovos dos pássaros, são os mais problemáticos. A vilania, nesse sentido, é nada mais que um ato de sobrevivência para uma espécie, afinal, os ratos precisam se alimentar. De maneira bastante simplificada e sem aprofundamento, a própria aparência dos ratos - sujos, dentuços demais e quase desbotados - relegam ao aparentemente desprezível a culpa pelos males da trama. Ainda assim, o tal episódio dos ovos é bastante pontual, da mesma forma que as próprias andorinhas também sobrevivem de suas presas, mas aqui é tratado de forma diferente da dos ratos: é engraçado ver Manou e seus novos amigos comendo os insetos, ou seja, aos bichinhos de asas não é dada a mesma humanização que é concedida aos ovos dos pássaros. Aqui, definitivamente, identificamos a mão humana!

Ao nos determos nas personagens fêmeas, nos é revelado um tipo de destaque curioso e que pretende ir além da figura materna disposta a proteger os filhotes, o que é feito, principalmente, por meio das palavras e não das ações. À mãe não é reservada grande parte da ação, mas as mais jovens - a andorinha Kalifa que encabeça a grande missão de resgate das gaivotas, é totalmente destemida, tornando-se responsável, de alguma maneira, por grande parte do ato heróico de Manou, assim como a jovem gaivota que compete com o pássaro uma corrida que decidirá quem é o mais rápido do grupo. Mesmo perdendo para Manou, a jovem gaivota, que mais tarde também é salva por ele, como um tipo de redenção da sua sede de competição, revela-se em um ímpeto aventureiro que não passeia somente pelas personalidades masculinas, ainda bem!

Com uma estética bastante colorida e uma narrativa agitada que chega quase a exprimir a sensação do voo dos pássaros, a animação Voando Alto dispensa as trilhas mais pop’s, fugindo um pouco de uma lógica lúdica, normalmente explorada por animações dirigidas ao público infantil: nessa história, as composições de jazz e os sons plurais acabam atribuindo outros valores, tanto para a diegese quanto para a produção em si.


Das escolhas mais fantasiosas e que à primeira vista parecem incoerentes - como a necessidade de uma escola de voo para os pássaros ao mesmo tempo em que esses mesmos seres são totalmente capazes de tocar instrumentos musicais - são as licenças que pouco interferem na narrativa e que não se obriga a mostrar exatamente a lógica sobre a vida e a biologia desses pássaros. O filme parece estar muito mais preocupado em realocar os valores que as diferenças entre os personagens são capazes de criar: o respeito, o afeto e, principalmente, o amor.

Além da trajetória de Manou, também acompanhamos a infância, juventude e vida adulta de um dos pássaros mais simpáticos da trama - Parcival - em seu colorido desengonçado; nascido em cativeiro, sua fuga quando filhote é embalada por uma triste cena em um cemitério em um dia de chuva intensa - dramático! A marca da mão humana aparece novamente, agora ela está na corrente que nunca deixará suas finas e longas patas. Todavia, a solidão de Parcival é revertida em uma personalidade alegre per se - suas tentativas em voar o levam sempre para o chão, mas de todos os pássaros, é o que parece chegar em um lugar mais alto, acolhedor e compreensível de um possível significado da vida vivida em sua máxima emancipação.

Parcival é tão adorável que é capaz de ensinar inúmeros pássaros de espécies e idades diferentes a voar, em uma aula atrapalhada que mais nos faz rir e não tira quase nenhum animal do lugar, a sua inocência não deve ser encarada como um alerta de perigo, ou seja, como um pássaro torna-se incapaz de sobreviver na natureza (ou melhor, como nós o tornamos assim), mas sim como uma das inúmeras formas de sobreviver, seja lá qual for a sua.


Nota: (3/5)


Assista ao Trailer:


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