Crítica | "Um Homem comum" é apenas um "filme cult comum"

Atualizado: 24 de Jan de 2019

Um Homem Comum é mais uma tentativa de obra gigantesca que se perde em seu ritmo extremamente carregado e cansativo. Do versátil diretor Brad Silberling (Cidade dos Anjos; Desventuras em Série e Gasparzinho, o Fantasminha Camarada), um Homem Comum apresenta Ben Kingsley (General), um criminoso de guerra procurado internacionalmente que precisa se habituar a uma vida de solidão e isolamento. Porém, seu caráter impetuoso é conflitante com esse seu novo estilo de vida e por diversas vezes tenta fugir daqueles que o protegem para fazer coisas ordinárias como ir ao mercado, comprar cigarros ou até mesmo interagir com pessoas aleatórias nas ruas. A vida do General começa a mudar radicalmente quando este é realocado para um apartamento, onde é apresentado à uma diarista chamada Tanja (Hera Hilmar). A relação estranha de ambos se intensifica conforme o passado desta começa a ser revelado aos poucos ao General, fazendo com que se intrigue mais ainda com a sua nova e única companheira.

O filme é marcado por diversas cenas silenciosas, cujo objetivo é enfatizar a solidão do General, porém, a obra torna-se demasiadamente carregada e sem ânimo, principalmente quando se analisa as relações existentes entre o General e seus adeptos que o protegem de forma a parecer que o mantém como um refém em cativeiro ao invés de uma figura na qual todos têm respeito e apreço. Por diversas vezes são apresentadas cenas onde Miro (Peter Serafinowicz), segurança e supostamente subordinado do General, o trata como um inferior e desacata suas vontades, fazendo-o se sentir como uma criança que precisa de cuidados de uma baby-sitter. A cena em que a diarista é introduzida ao General também é marcada por uma tentativa infeliz de justificar uma nudez gratuita. O General manda que a moça retire suas roupas e até a princípio a cena parece ser justificável, porém quando ela o faz, o General a obriga a tomar um banho para verificar se a mesma não possui tatuagens. Todo este conflito poderia ser resolvido simplesmente em uma revista aos moldes dos enquadros policiais brasileiros sem que houvesse a necessidade de uma exposição gratuita da atriz, tornando assim mais evidente a ideia de que esta obra tenta se vender para um público nobre e de nível de cultura tão elevado que veria esta cena como apenas uma necessidade artística para engrandecer a obra. Um dos pontos a se enaltecer é a exposição dos pensamentos ideológicos do General. É nítido o quanto sua visão é de um mundo distorcido e este por diversas vezes tenta convencer de que seus atos e crimes de guerra são totalmente justificáveis para o contexto em que vive. Parafraseando as palavras do próprio General: “Ninguém tem o direito de o julgar”. Ao seu olhar, tudo o que fez foi em nome de uma causa nobre e gigantesca. Seu rosto pintado nos muros e os pequenos gestos de reconhecimento das pessoas com quem interage o cegam para que viva dentro de uma bolha em que acredita ser realmente uma celebridade para uma nação, acreditando piamente que nunca se esconderá de ninguém, pois todos o temem e o respeitam.


O desenrolar de Um Homem Comum também deixa a desejar devido à falta de elementos cativantes para com o público. Houve uma tentativa de Uma Linda Mulher que foi rapidamente desperdiçada quando a real identidade de Tanja é exposta ao General, fazendo com que todo aquele pouco apreço à personagem desenvolvido pelo público se perca rapidamente. Assim que o General descobre que as autoridades pretendem entregá-lo como um criminoso de guerra, faz com que Tanja o fuja com ele e o leve em direção ao local onde nasceu e cresceu. O filme passa a investir então em fotografias belas mostrando paisagens do leste europeu e a simplicidade dos povoados que o habitam, porém, sua montagem é decepcionante, principalmente com sua trilha sonora contrastante e sem nexo para com as cenas apresentadas. Apesar das atuações terem sido plenamente satisfatórias, a execução da obra deixa a desejar e diminui muito o que poderia ter sido um grande filme a respeito de solidão e dos conflitos internos de um homem controverso por ser idolatrado e respeitado por muitos, mas odiado e temido por outros. Um Homem Comum, infelizmente, não é nada além de um filme ambicioso, mas com um desenrolar decepcionante que custa a fazer com que seu público o estime tanto quanto outras obras do diretor Brad Silberling. Apenas um filme qualquer e “Um Cult Comum”.


Assista ao trailer:


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