Espírito Perdido: Entrevistamos o autor P.J. Maia - confira!

No dia 4 de maio aconteceu o lançamento do livro de fantasia “Espírito Perdido”, do jovem escritor brasileiro P. J. Maia na Livraria Cultura. Com tradução de Robson Falcheti Peixoto, desenho de capa do ilustrador argentino Nico Lassalle, pesquisa do mapa de Luna Chino e ilustrações internas de Bruno Algarve, a história de P. J. explora as infinitas possibilidades imaginativas do universo literário.

Com um estilo que se aproxima dos roteiros de cinema, a narrativa de “Espírito Perdido” traz muito da experiência do autor como leitor assíduo do gênero fantástico. Tal perspectiva só tende a encorajar aqueles que seguem na batalha custosa da literatura brasileira, mesmo sem formação na área de letras, P. J. se torna um exemplo para muitos. Mesmo que os processos criativos sejam variados, fomentar a coragem pela escrita e pelas artes no geral, é uma das melhores formas de refletir sobre o que somos e a nossa forma de contribuir para o mundo. Com uma protagonista menina e negra, Keana Milfort, a história se passa há duzentos mil anos e envolve uma série de espécies como os proto-humanos e os divinos, que começam a desvendar as adversidades e angústias do mundo. Como uma trama de maturação, “Espírito Perdido” apresenta uma jovem não conformada com o seu destino, reverberando questões atemporais.

No bate-papo com o autor, aproveitamos para perguntar um pouco sobre as suas referências, seu processo de criação, as temáticas contemporâneas, a narrativa e as suas perspectivas com relação ao caótico cenário político, mas que de alguma forma converte-se em estímulo criativo.


CAROL (TODAS GEEK) – Desde criança você demonstrava interesse pelo estudo de idiomas e as histórias de fantasia. Existe alguma memória importante dessa época que fez com que você começasse a escrever?

P.J. – Eu acho que o primeiro contato direto que eu tive com a fantasia tradicional foi com alguns livros como o do Pequeno Príncipe que, na verdade, tem uma coisa de filosofia, mas não deixa de ser fantasia e foi um livro que eu ganhei de presente do meu pai. Quando eu era pequeno eu usava óculos grandes e era um menino um pouco introspectivo, brincava com os meus amigos, gostava de mundos mágicos e adorava aquele filme Pagemaster (1994) que a personagem entrava nos livros, sempre tive esse fascínio. Um dia meu pai viu o lançamento de um livro que na capa tinha um menino que ele achou parecido comigo, ele falou “eu acho que o Paulo vai gostar desse livro”. Era o livro do Harry Potter que tinha acabado de lançar, eu devia ter uns 10 anos de idade. Eu já gostava de ler, mas não tinha o hábito de ler, só lia alguns gibis. Eu engoli o livro da J. K. Rowling em uma semana e depois eu pedi os próximos. Eu era uma criança meio “rackerzinha” e descobri que o Harry Potter – O Prizioneiro de Azkaban, o terceiro livro da série, tinha sido publicado fora, na época eu nem tinha essa noção que os livros eram publicados fora e depois traduzidos. Com 12 ou 13 anos descobri que o Harry Potter estava disponível em inglês, um idioma que eu já estudava, mas que não tinha uma bagagem para ler. Então eu encontrei o primeiro livro e comecei a ler em português e em inglês comparando os dois, fiz isso com o segundo e quando chegou no terceiro eu já estava craque. E de lá pra cá, quando é um idioma que eu sou fluente, sempre tento ler a versão original, ou seja, o contato com literatura em outros idiomas faz parte da minha formação.


CAROL (TG) – Para você foi natural escrever o livro primeiro em inglês. Como foi esse processo, afinal, a língua faz parte da cultura que está inserida. Quando escreve em inglês, você pensa dentro de uma estrutura diferente?

P. J. – Isso é muito legal. Eu trabalhei com um tradutor muito bacana que é o Robson Falcheti e a gente se encontrou pessoalmente. Ele já começou falando que pra ele isso era muito estranho, ele não estava acostumado a conhecer os autores das suas traduções e os autores geralmente, não falam a língua que ele traduz. Foi um processo curioso, eu quis que ele tivesse total liberdade, mas eu queria também poder contemporizar algumas coisas. O livro tem um glossário com muitos termos fantásticos, muitos neologismos, eu gosto dessa coisa de criar palavras, então eu disse para o Robson, a tradução é sua, mas eu posso dar meus “pitacos”? E daí chegamos em um consenso, afinal, ninguém gosta de trabalhar amarrado e ao mesmo tempo é o meu idioma, eu vou ler do começo ao fim e ver se as coisas estão batendo. Depois que você lê no seu próprio idioma você até se surpreende, eu descobri certas nuances de algumas cenas com personagens que não estavam nítidas de forma consciente na outra língua, parece que é uma outra entrada para a mesma casa – você entra no mesmo lugar de um outro ponto de vista.


CAROL (TG)– Na sua fala eu percebi o termo “cena”, o que acontece, também, muito por conta da sua formação em audiovisual. Como o meio cinematográfico interfere na sua escrita literária? Até que ponto você consegue relacionar esses dois mundos?

P. J. – Eu não tenho treinamento formal em literatura, meu contato é como leitor e apreciador e o meu treinamento de escrita é como roteirista. Pessoas com quem eu já troquei ideia e alguns críticos de fora chamaram a atenção pelo aspecto dos diálogos e a construção das personagens. A estrutura dramática está mais em evidência do que, de fato, um foco apurado em descrições. Não é um livro tão descritivo quanto os fãs do gênero estão acostumados a ler, mas eu também acredito que a cultura audiovisual hoje, com os acessos e as pistas, dialoga com isso, por exemplo, no começo de cada cena você tem um cabeçalho, coordenadas geográficas – nesse ponto eu conto com a interatividade do leitor. “Espírito Perdido” tem pistas para os leitores, caso queiram mais detalhes de cenários e elas também podem ser encontradas fora do livro. Eu sinto que o livro pertence aos personagens, ele te joga dentro da cena mais do que desenha a cena.


CAROL (TG) – Acho importante destacar o fato de que a sua protagonista seja uma menina, principalmente quando pensamos nas demandas contemporâneas e a questão da representação feminina na arte. Sobre as temáticas de raça e gênero que estão presentes na história: como foi pensada essa escrita a partir desses assuntos?

P. J. – O que eu tentei pensar no mundo fantástico é a ideia de que todos partem de um mundo muito protegido, de um lugar com muitos privilégios em que não há dor, doença ou tristeza e, é quando as personagens começam a ter consciência de que a morte existe e o mundo lá fora é real, ou seja, que as pessoas sofrem. É o choque da realidade. Aqui, estou lidando com os primórdios da humanidade e eu entendo que questões e conflitos culturais e étnicos são uma coisa mais recente. A história acontece há 200 mil anos e eu pensei em trazer à tona um lugar onde esses conflitos não estejam presentes, afinal, o ser humano sempre se dividiu em tribos e ele sempre descriminou o diferente. Eu quis aproveitar um momento que a gente precisa de integração: os humanos vão jogar todos juntos, não quero criar na pré-história uma discriminação racial, por exemplo, mas a discriminação como um todo está presente no livro entre espécies – Deuses, humanos e Neandertais. Dentro desse jogo de diversidade a gente consegue apresentar a humanidade como um time só: uma sociedade em que as pessoas têm poderes mágicos e a força física não é um fator dominante, homens e mulheres acendem socialmente da maneira que lhes convêm, quem quisesse focar em carreiras de caça ou doméstica independeria do gênero. A história também tem casais homoafetivos e toda essa questão da moral judaico cristã, particularmente, eu quis começar antes disso. As pessoas estão mais atreladas a proteção e ao afeto, penso que normalizar o que no nosso mundo é tão reforçado, dá uma certa leveza para a história. Apesar disso, na boca dos vilões existem preconceitos a beça também, eu gosto de deixar as coisas claras nesse lugar.


CAROL (TG) – Eu consegui identificar a partir da sinopse uma pitada de trama de maturação, afinal, você está tratando de uma menina jovem e que passa por problemas comuns da adolescência – que podem ser diferentes dos que os jovens enfrentam hoje, mas que não deixam de ter suas similaridades, como por exemplo, a questão da vida adulta e das passagens. Em que medida você pensa que isso pode dialogar com a juventude atual de leitores?

P. J. – A adolescência é um período que pode ser muito confuso, é quando a gente está tentando não só descobrir a nossa identidade, mas desenvolver alguma forma de independência da nossa família, só que a gente ainda tem uma dependência real deles, seja financeira ou emocional. Existe um processo que é muito comum até para os mais introspectivos, que é o fato de se sentir isolado, um espírito perdido mesmo. A trama traz para esses jovens a sensação de que os perigos existem e que a vida não é perfeita, o ninho seguro que você conhece não dura para sempre. Mas existe também muita emoção e ansiedade positiva em descobrir, aprender e querer se fortalecer e se preparar para explorar esse mundo. Os personagens foram protegidos a vida toda e agora eles saem desse lugar de inocência. Uma vez que eles descobrem que existe algo completamente diferente, isso não os assustam, isso desperta uma coragem. Então, eu espero que a juventude e a maturação como é abordada no livro, traga para o leitor mais jovem ou aquele mais maduro que está lembrando da própria juventude, a sensação de que o inusitado, o estrangeiro e o longínquo pode despertar um senso de coragem e um espírito aventureiro.


CAROL (TG) – Como um jovem escritor, qual a sua visão do mercado literário de fantasia e ficção científica no Brasil? Você acredita que existe um público possível e que se interesse por essas histórias, pensando nas problemáticas sociais, políticas e culturais que estamos vivendo atualmente? O que, de fato, a literatura pode oferecer para esse momento?

P. J. – A fantasia e a ficção científica à sua maneira, possuem uma qualidade muito especial que é a de você propor a abstração, propor as pessoas enxergarem por meio de um filtro, uma peneira de encantos, ou seja, avistar a sua realidade de outras formas. Conseguir demonstrar os seus conceitos, fazer uma leitura lúdica do que está acontecendo e trazer aquilo de volta para a sua vida. Fora que, estamos vivendo uma era de muita informação, de cansaço mental, um excesso de contato com a injustiça, mas somos conscientes de que a mudança é necessária e tudo isso pode resultar em um tipo de estafa mental e espiritual. Você conseguir propiciar lugares de fuga que possam se tornar experiências edificantes em que as pessoas conseguem conhecer histórias novas, se refletir e conseguir voltar para o mundo real com um pouco mais de criatividade, serenidade e entusiasmo, isso é muito válido. Eu acho que quanto mais stress, mais as pessoas precisam sonhar, aqui a gente está começando, talvez chegando um pouco tarde no jogo, afinal, fantasia e ficção científica são gêneros tradicionalmente mais norte-americano ou ingleses, mas enfim, uma boa história é uma boa história, e isso envolve beber de nosso próprio repertório, pesquisar sobre o que gostamos de falar e nos empenhar para que nossos personagens tenham a sua própria voz. A fantasia, só por depender única e exclusivamente da imaginação e não precisar ter a responsabilidade da fidelidade de representar o que está acontecendo, oferece opções infinitas. Espero conhecer cada vez mais os colegas do Brasil e de fora, temos muita história e muita cultura rica que é pouco explorada, eu estou confiante de que estamos abrindo uma porta que não vai se fechar.

Carolina Oliveira, jornalista do Todas Geek e P.J. Maia, autor de "Espírito Perdido".

P. J. Maia parece ter encontrado um espírito muito próximo da esperança que podemos e devemos depositar na arte da escrita. A criação de novos mundos não está apenas no prazer em imaginá-los, mas nas distintas formas de como eles podem falar sobre o nosso próprio mundo.

Qual o alimento da literatura brasileira fantástica? Para muitos pode parecer que esse gênero não diz muita coisa sobre a nossa história, um país em que, a princípio, as vertentes do realismo e do naturalismo foram exploradas de forma mais profunda. Todavia, em um panorama geral e rápido da história brasileira, revelamos que o fantástico sempre esteve por perto por meio de autores como Jeronymo Monteiro, Gerson Lodi-Ribeiro, Ana Cristina Rodrigues, Dinah Silveira de Queiroz, Ivanir Calado, Ignácio de Loyola Brandão e outros que transitaram por diversos gêneros, tais como Rachel de Queiroz, Chico Buarque, Monteiro Lobato, Machado de Assis, além dos nomes que, por vezes, passam despercebidos. Com uma lista extensa e que interessa a cada vez mais pessoas, principalmente no que se refere às pesquisas acadêmicas, o terreno do fantástico e da FC assumiu uma empreitada social com coletâneas como a “Universo Desconstruído”, organizado por Lady Sybylla e Aline Valek, que visa produzir histórias que tratem das questões de gênero, sexualidade, raça e classe. Essa é a maravilha de um universo em constante expansão!

E nesse momento rememoro uma conversa que não está na entrevista, mas que pode ser potencializada e presentificada em muitos locais que prezam pela educação. Ao esperar a minha vez para falar com o autor, encontrei dois bibliotecários muito simpáticos que, em uma breve conversa, comentaram um pouco sobre as suas experiências. Um deles me contou maravilhado o interesse de duas estudantes pela leitura e a frequência com que elas visitam a biblioteca. Respondi com um sorriso. Para completar ele comentou que se sente responsável, também, por incentivar esses jovens a leitura, mesmo em meio às incertezas que vivemos na área de educação. Meu entusiasmo foi ainda maior quando um deles disse que, ao perceber o interesse dos alunos, decidiram começar a construir caixinhas de madeira com livros dentro, difundindo a ideia de que esses materiais possam ser compartilhados entre os alunos. Nesse breve relato, o ímpeto de personagens como a de Keana, passa a fazer mais sentido, como jovem e desbravadora de seu mundo, ela se arrisca justamente por não aceitar um destino angustiante. A caixa de livros de nosso bibliotecário sem nome reverbera essa mesma oportunidade: a liberdade deve ser executada em todas as suas formas e, com certeza, na leitura encontramos uma das mais belas maneiras de exercê-la.


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