Frankie é sobre estar morrendo e vivendo ao mesmo tempo


#Frankie é um filme que já entrega de antemão, em seu próprio título, o peso que a protagonista - curiosamente uma atriz muito conhecida - deposita em cada uma das pessoas que conheceu na vida.

Com um roteiro apoiado em diálogos e nas relações atravessadas entre família e amigos, o filme de Ira Sachs foge do melodrama - mesmo com a descoberta do câncer terminal, Frankie não é o tipo de personagem com a qual simpatizamos no início e isso, provavelmente, perdura até os últimos minutos da trama.

Foi-se o tempo em que deveríamos nos identificar com as personagens? Sim. E isso faz o filme ter uma história fraca? Definitivamente não. Se o princípio da história está em mostrar as relações cada vez mais complexas e que se aguçam com a certeza da morte, a abordagem de Frankie está no caminho certo - é preciso entender que, muitas vezes, a vida pode ser realmente sem graça ou que, muitas vezes, a vida pode acabar no próximo minuto.

A viagem a Sintra, uma bela cidade de Portugal, não acontece só para reforçar os laços familiares - Frankie (Isabelle Hupert) como a mulher moderna, Jimmy (Brendan Gleeson) como o marido vulnerável, Paul (Jérémie Renier) como o filho problemático, Sylvia (Vinette Robinson) como a filha adotiva que abraça tudo para si ou Michel (Pascal Greggory) o ex-marido gay - mas para corroborar os problemas que não desaparecem mesmo quando nos aproximamos da morte.


Ao mesmo tempo, com a exploração das vistas deslumbrantes de uma cidade recheada de histórias - uma delas é a da fonte que promete curar, o que irrita Frankie - as conversas são entremeadas a um outro tempo da vida, o da contemplação que, muitas vezes, passa despercebido.

Ao lidar com os incômodos como parte iminente do viver, Frankie está sempre caminhando sem exatamente saber para onde ir, mas isso, aparentemente, não a incomoda muito. Em contrapartida, seu marido Jimmy, parece orbitar totalmente a parte, tendo que descobrir uma forma de encarar o luto que está por vir.

Já a relação com os filhos e netos ora mascaram-se e ora revivem entre os próprios problemas pessoais: a ausência do amor para Paul e as problemáticas do casamento para Sylvia - nessa viagem, todas as situações embaraçosas e os sentimentos que normalmente experimentamos sozinhos são revisitados.

Na passagem dedica à neta, Maya (Sennie Nenua) que passa um dia na praia com um garoto que lhe conta a história da ilha em que estão - totalmente entremeada a da sua família - o tempo da juventude encontra o tempo da velhice e parece fazer um contraponto, nem sempre verdadeiro, mas cabível nessa história, de que estamos em uma constante contagem regressiva que é, de forma assustadora, aproximada pela idade.

Já para Irene (Marisa Tomei), grande amiga da atriz - o momento das hesitações amorosas consegue reaver um tempero mais cômico e descontraído: ela foge literalmente do casamento, ao preferir estar sozinha e assim, permanecer bem. O filme toca em um ponto delicado: estar só não é sinônimo de tristeza, pelo contrário, é preciso aceitar-se só para depois, aceitar o outro.

Sem grandes pontos de virada ou resoluções de conflitos, Frankie possui um roteiro ameno e que se articula mediante a própria despretensão da protagonista - estar morrendo é, também, estar vivendo. Diante de dramas burgueses que nos parecem tão grandes, a escolha por uma imagem final em um grande plano geral que prevê mais a paisagem que aquelas pessoas, demonstra o quanto somos módicos e o quanto levamos em nós um pouco do outro.

Se Frankie é quem ordena a caminhada, chegando primeiro ao topo, para depois todos os outros a seguirem, ela também é a primeira a deixar o local - o que seus familiares, logo em seguida, também repetem. Ao observarmos essa cena demorada, feita para mergulharmos em seus detalhes distantes, especulamos um tipo nada moderno de matriarcado que ainda carregamos, mesmo que inconscientes - a figura da mulher forte e cheia de dependentes ainda nos é cara e interpretada como uma mulher realmente brilhante, porém, até quando essa figura permanecerá?


Nota: (4/5)

Assista ao trailer:

#cinema #critica #parisfilmes

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