"Inocência Roubada" volta a colocar em pauta a nossa capacidade de fingir que tudo está bem!

Um filme que traz à tona o desprezível, Inocência Roubada (Les Chatouilles, 2018) é um belo testemunho visual e textual sobre a abjeção humana, mas também é sobre uma mulher que decide enfrentar uma perturbação violenta que lhe acompanha desde menina. Baseado na obra de Andréa Bescond e Eric Metayer, do qual o texto original fora apresentado como espetáculo teatral no Festival de Avignon em 2014, a roteirista é também diretora e protagonista de sua própria história. Odette Le Nadant (Andréa Bescond) é uma dançarina de trinta e poucos anos que decide, em uma de suas sessões com a terapeuta (Carole Franck), revelar o abuso que sofrera desde os 8 anos por um grande amigo de sua família, Gilbert Miguié (Pierre Deladonchamps) – um personagem, como aponta os autores, que deveria, a princípio, fugir de qualquer ideia estereotipada sobre um homem pedófilo ou, pelo menos, a ideia que pressupomos de como identifica-los.

Em uma narrativa que entrelaça os tempos de maneira astuta, presenciamos uma terapia que é capaz de regredir ao passado sem hipnose. A história de Odette é revivida como em um palco de teatro, espacialidade que profere a dança como não só a sua profissão e meio de sobrevivência, mas uma forma de expressar os seus sentimentos. Ao mesmo tempo em que Odette conversa com sua terapeuta – que parece mais chocada e indignada que a própria moça, negando envolver-se pessoalmente com o caso da paciente, prerrogativa que ela não consegue atingir – observamos a jovem Odette em seu quarto, desenhando ou brincando, quando diversas vezes é interrompida por Miguié.

O tratamento do tempo está longe de ser intercalado, na verdade, o que assistimos nada mais é do que o resultado de nossas vidas, ao que parece, tudo aquilo que vivemos no passado, nunca fica por lá. Todas as experiências – boas ou ruins – são levadas a patamares distintos, refletidas e revisitadas ao longo de novos aprendizados. A amizade entre Odette e Manu (Gringe), por exemplo, é uma prova dessas reminiscências: o reencontro entre os amigos acontece de forma divertida na mente da dançarina, conseguindo estabelecer diálogos capazes de realizar sonhos de uma juventude já vivida, tal como aproveitar uma noite dançando em algum lugar dos EUA. Posteriormente, quando a dupla conversa em uma sala de visitas, já que Manu encontra-se preso, nos damos conta do quanto a criação dessas personagens consegue atingir aquilo que chamaríamos de verossímil – afinal, não lidamos só com uma mulher traumatizada, uma mãe desnaturada, um jovem criminoso ou um homem doente – mas com pessoas que decidem enfrentar as suas aflições de alguma forma, com alguns que parecem dispostos a sofrer as consequências pelas escolhas já feitas e outros que vivem suas próprias mentiras. Em Inocência Roubada o mérito é, justamente, não definirmos as personagens em dois ou três adjetivos, mas conseguirmos identificá-las como alguém que poderíamos conhecer ou alguém que poderíamos ser.


A porta florida do banheiro de Odette, tão simbólica no que se refere ao segredo que é forçosamente guardado, é aflitamente trancada por seu agressor e torna-se uma barreira intransponível para a jovem menina – um ambiente sufocante tanto para Odette quanto para o espectador. As cenas de agressão são executadas de forma tão dissimulada quanto a negligência do olhar dos pais: Miguié é capaz de aparecer na madrugada em meio ao quarto das crianças – seus próprios filhos – para “fazer cócegas” na menina – como ele mesmo se refere. A violência com o pequeno corpo de Odette é muito próxima daquela que a menina sofre com a sua própria mãe, Mado Le Nadant (Karin Viard) – uma mulher difícil e que parece ter vivido um passado tão duro quanto o presente da filha.

Exigente e bastante conservadora, Mado luta para conservar a aparência de uma família feliz e perfeita: sua vergonha pelo comercial em que a filha trabalha – uma propaganda módica de uma companhia aérea desconhecida – é o suficiente para irritá-la. O julgamento por investir tanto na carreira de Odette e ela retribuir com trabalhos “pouco recompensadores” é mais um sinal do quanto as pessoas depositam suas expectativas em coisas das quais elas não possuem o menor controle, não que, de fato, ele exista.

Mais tarde, ao contar para os pais já mais velhos sobre o abuso, a resposta da mãe é pouco surpreendente para o que já vinha sendo mostrado sobre a sua índole. É doloroso, quase incompreensível maternalmente falando, mas profundamente instigante: Odette é capaz de fazer o que sua mãe pouco fez por ela, aceitá-la.

Já a relação com o pai, Fabrice Le Nadant (Clovis Cornillac) é mais afetuosa, mostrada por meio de pequenos detalhes cruéis, mas extremamente compassivos: Fabrice a leva até a nova moradia em Paris, para que a menina prossiga com suas aulas de ballet, nesse momento, a dor do que parece um abandono momentâneo reverbera um cuidado do qual ele não foras capaz de tomar. Da mesma maneira, o pai que faz as vontades da filha se intromete em uma briga cotidiana – a tolha de banho da menina, suja pelo seu agressor é motivo da braveza da mãe que, como castigo, a faz utilizá-la pelos próximos dias – o pai, então, se compadece e leva o pedaço de pano cheio de culpa para ser devidamente lavado. Mado entende como uma afronta, é quando a menina é entregue para o seu agressor mais uma vez.

Com o pôster de seu dançarino preferido pendurado na parede escura do novo quarto, a jovem Odette pede conselhos, confia a figura um tipo de refúgio, ela estabelece ali o quanto a arte pode manobrar aquilo que sentimos e o seu ídolo é real, ele se mexe, fala e chega até a sair do papel. Assim como por meio do filme acompanhamos a forma quase biográfica como Andréa expõe sua história, a adesão que Odette dá para a dança como o meio mais intrínseco para estar no mundo, este é um dentre os inúmeros exemplos no cinema e fora dele de como a arte encontra uma forma de falar sobre o mundo, criando refúgios tão genuínos quanto tudo aquilo que um dia poderemos tocar para garantir a solidez.


Ao se recordar dos acontecimentos de forma caótica e, muitas vezes, entremeada ao uso de drogas, Odette utiliza o corpo para coreografar toda a sua raiva, mas também o seu amor. Em mais um trabalho que seria sentenciado por sua mãe, Odette e suas amigas vão performar em uma festa, em sua memória espirituosa da qual ela é totalmente capaz de interferir vivendo de maneiras distintas, Odette subitamente comenta sobre ter sido vítima de pedofilia, deixando suas companheiras completamente bestificadas – a dupla incorpora um breve retrato de uma sociedade que não está preparada para reconhecer a sua crueldade, apenas treinada para jogar debaixo do tapete aquilo que a estorva.

Ainda que o retorno a um relacionamento amoroso padrão aconteça no filme, mais como uma maneira de confirmar a superação ou uma parte dela, a paixão por Lenny (Grégory Montel) – um bem-humorado fisioterapeuta – coloca à prova a devoção de Odette pela dança, uma problemática entre amor e profissão que acaba não se resolvendo, já que tudo consuma, na verdade, a relação entre a jovem Odette e a Odette adulta.

Inocência Roubada volta a colocar em pauta a nossa capacidade em não enxergar, ou simplesmente, em fingir que tudo está bem. A experiente dançarina grita para o mundo por meio de seus densos gestos tudo aquilo que não somos capazes de colocar em palavras – o julgamento de Miguié exacerba em imagens a nossa cumplicidade, afinal, qualquer um de nós poderíamos ocupar os mesmos lugares daqueles que escutam as confissões caladas por tanto tempo, engolidas por lágrimas e banhadas por uma vergonha que a sociedade insiste em alimentar.


Nota: (5/5)


Assista ao trailer:

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