"Os Papéis de Aspern" apresenta personagens que exalam o egoísmo

Adaptação da novela de Henry James, um dos autores mais influentes do século XIX, Os Papéis de Aspern do francês Julien Landais, mais conhecido por seus trabalhos na área da moda, publicidade e videoclipes – é uma trama que apresenta um mistério caricaturesco, mas que admira pela imensa amplificação que dá às personagens femininas.

Um dos trabalhos mais aclamados de 1888, o romance homômino de James é um clássico da literatura. Baseado nas cartas que o poeta Percy Bysshe Shelley escreveu para Claire Clairmont, a filha da madrasta de Mary Shelley – o romance prevê uma série de insinuações a partir de um relacionamento a três, o que traz ao filme uma aura iminentemente poética.

Ao contar a história de um ambicioso e refutável editor norte-americano, Morton Vint (Jonathan Rhys Meyers) que se mostra obcecado pelo poeta romântico Jeffrey Aspern (Jon Kortajarena), a história edifica-se sobre um vai e vem do passado e presente. Com um disfarce, o editor pretende conseguir as cartas que Aspern escrevera para Juliana (Vanessa Redgrave/ Alice Aufray) – sua amante anos antes, e para isso, conta com a ajuda da sobrinha de Juliana, Srta. Tina (Joely Richardson), porém, as condições postas por ela não são, para Morton, nem um pouco agradáveis.

Encenado em uma Veneza que pretende acentuar a atmosfera de mistério e romantismo individualista, Os Papéis de Aspern apresenta personagens que exalam o egoísmo: Morton ensaia cada movimento com o intuito de desvendar o que fora escrito nas cartas de seu ídolo; Juliana é uma senhora rabugenta e apegada ao patrimônio, sua prepotência juvenil é potencializada na forma como ela constrói seu discurso, balbuciando reclamações com lábios já frouxos, sua esperteza parece não caber mais no corpo debilitado; à Srta. Tina é reservada palavras comedidas e medrosas, sua feição adulta, já madura demais em sua aparência, não esconde o fato de ela não ter vivido o que lhe era de direito quando jovem.

O filme especula entre as memórias de Juliana e o texto de Aspern por meio de flashbacks que pretendem revelar a intimidade de uma relação de um trio composto por um outro jovem poeta que é interpretado por Nicolas Hau. Completamente tomada pelo espírito romântico da época, as imagens surgem de forma hiperbólica e pecam, em alguns momentos, pela sobeja sensualidade da juventude. Morton, na sequência dos sonhos com a temática ‘Doppelganger’ – que convence mais pela plasticidade que pela narrativa – quer apontar para um sósia que atormenta. No entanto, o desempenho frívolo de Meyers torna sua personagem nada simpática – ao público é mais interessante a dúvida das lembranças de uma senhora, que o ímpeto detetivesco de um escritor exuberante e que parece estar sempre em uma cena ápice de ação.

Ao mesmo tempo, a capacidade de gerar suspense na obra de James, consegue, em sua adaptação, resgatar tal excitação, principalmente no que se refere às personagens femininas que ocupam grande parte da narrativa. Juliana receia que suas intimidades da mocidade sejam reveladas por um editor patife, sua dureza explica uma preocupação concreta com o que existe de mais seu: o direito de memória. Esse mesmo rigor é o grande opressor da vida de sua sobrinha, que vive enclausurada em um palácio decadente, porém, a transformação de Tina é, muito provavelmente, o que o filme traz de mais aliciante.

Sua vida tomada pelos cuidados com a tia, não fora o suficiente para tapar as brechas de uma mulher divergente, e por isso, astuta. Mesmo exigindo condições tresloucadas ao editor que ela parece se apaixonar, sua metamorfose convence muito mais que a solidez de suas duas companhias. Por meio de sua performance corporal, apreendemos uma mudança que é interior – olhos sempre prestes a emocionar-se, postura encabulada e um cabelo quase sempre bagunçado – é o que plasticamente nos faz crer em sua inocência: a displicência com os cuidados de si. Porém, sua avidez pela vida que ainda pode vivenciar uma aventura amorosa, a encaminha para uma proposta que a aprisionaria outra vez: o casamento. Ambas as mulheres caminham em um terreno que prevê a liberdade e uma forma que a sociedade ou as próprias personagens possuem de terminá-la: o que está escrito não é revelado e acaba por deter-se ao poder do silêncio.

Outras personagens femininas, as expatriadas da histórias e um pouco menos valiosas para a trama, mas igualmente construídas sob a égide romântica dos relacionamentos são: Emily (Barbara Meier) e Valentina (Morgane Polanski) – jovens com poucas falas e que parecem marcar presença, infelizmente, somente pela beleza púbere ao comentarem a realização pelo casamento. Uma dupla mais madura e excêntrica é a Mrs. Prest (Lois Robbins), uma espécie de conselheira aparentemente a frente de seu tempo, americana e rica que se destaca ao abandonar os vestidos e Colonna (Poppy Delevingne), outra amiga que surge com provocações para a inabilidade jornalística de Morton.

A sequência mais interessante é, com certeza, a acompanhada pela Ópera Romântica Alemã de Richard Wagner, Tristão e Isolda. Ao embalar a transformação de Tina, a composição ousada que abre caminho para a atonalidade, exprime pelo som uma aproximação não conclusiva. Afinal, as prerrogativas estipuladas pela narrativa não são, de maneira nenhuma, alcançadas pelo herói e permanecem igualmente inacabadas pela sobrinha. Tina assume a vestimenta de luto da tia e consegue erguer-se sob uma personalidade complexa, ramificada e que ao mesmo tempo lamenta por aquilo que nunca obteve, mas se contenta ao proporcionar o mesmo vazio ao seu amante platônico. Ao promover um silêncio que, de alguma forma pertence às personagens femininas, o filme, apesar de buscar constantemente as cartas escritas por um poeta, deixa transparecer as alternativas possíveis às mulheres, não somente enquanto musas de um texto misterioso, mas as condições que as direcionam como fazedoras de sua história. Dessa maneira, as cartas queimadas por Tina, de alguma forma deixam mais presentes e relevantes a memória de Juliana sobre a sua vida, fugindo dos relatos de um homem que precisa de outros homens para promover a sua autenticidade literária.

Os Papéis de Aspern acaba por negar o seu próprio título. No filme, as cartas escondidas importam muito menos que a lembrança e a transformação dessas mulheres. A trajetória de um editor que se pensa atraente e tentador é apenas um reforço do quanto a história não está, necessariamente, no desbravamento das ações, mas naquilo que não é dito – ainda que o filme complete com imagens idealizadas algo que funcionaria muito bem com a sua ausência.


Nota: (3/4)


Assista ao Trailer:

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